“Será que somos anjos caídos que não quiseram acreditar que o nada é nada e portanto nascemos para perder aqueles que amamos e os amigos queridos um por um e afinal nossa própria vida, para ter essa comprovação?”
Vagabundos iluminados, Jack Kerouac
terça-feira, 29 de março de 2011
domingo, 20 de março de 2011
Tua namorada me odeia.
Borrões. Ultimamente as coisas estão meio borradas. Não se vê nada claramente. De dia, as árvores se transformam em manchas verdes ao longo da estrada fundindo-se com as faixas amarelas do asfalto. As noites vêm carregadas de copos manchados de batom vermelho; batom muitas vezes deixado em bocas estranhas por aí. Algumas vontades ocultas são potencializadas por líquidos de cor âmbar e nessas noites em que perde-se muito mais do que a credibilidade, por assim dizer, entram em cena personagens que parecem não figurar no mundo real. São personagens mágicos e essas madrugadas insanas são como filmes com começo e nenhuma continuidade, nem mesmo fim. Ou será que o fim é aquela parte em que você acorda em um quarto estranho, com a garganta rouca (culpa do cigarro) e a cabeça girando tentando lembrar de alguma parte desse tal "filme"? Aí tudo vem como pequenos flash backs e você pensa que queria não ter feito o que fez. Não queria ter dançado como dançou. Não queria ter cruzado aqueles olhares e nem bebido tanto. Mas é impossível se controlar quando as madrugadas são tão sedutoras. Tão mais sedutoras que a tua "vida real". Que aquelas coisas chatas de adulto que te foram impostas. É tão libertador andar na areia ou debaixo de chuva sem se importar se a umidade vai estragar o cabelo ou borrar a maquiagem. Ou sem se importar se nunca mais voltará a ver aquele par de olhos azuis. Ou castanhos. No fim, elas se tornam imagens distorcidas pelo álcool na lembrança. Tão linda "a princesinha da vó" ter-se tornado patética aos 20 anos. Que aquele cabelo que era trançado com tanta ternura agora nada mais é que mistura de nicotina e xampu. Que as mãos que costumavam escrever por horas a fio agora tocam corpos desconhecidos e carregam copos cheio de cerveja. Vergonha. E tudo se repete. Porque precisa correr mais riscos e perder-se mais pra sobrepor as esquisitices que fizera. Abusar de alguma substância que entorpeça pra esquecer a mediocridade de tudo que me cerca. Pra esquecer tudo. Pra esquecer nada. Pra deixar pra lá o batom borrado. E fazer de conta que a tua namorada não me odeia.
sábado, 5 de março de 2011
Dos pares
Um de ouvidos e um de mãos. Um para servir de alento, outro para servir de refúgio.
Porque os que possuo não me bastam. Não mais.
Um breve precisar que se repete. Onde será que andam os vagalumes?
Porque os que possuo não me bastam. Não mais.
Um breve precisar que se repete. Onde será que andam os vagalumes?
terça-feira, 1 de março de 2011
Estranhos no corredor
Era meados de agosto quando se rendeu. Ou será julho? Já não lembra mais; parece ter sido guardado em algum lugar longínquo de sua memória. Era inverno. O que viria a ser o melhor de todos em muito tempo. Ainda consegue fechar os olhos e lembrar das cores na parede da sala de estudos e dos perfumes. E de como aquele casaco azul era quentinho. Já não lembrava mais, ou escolhera por não querer lembrar. Porém, um dia, foi acometida de algumas lembranças que viriam de algo bem improvável: a chuva. Cada gota no telhado daquele sábado trouxe pra si um pequeno flashback de algo tão intenso quanto breve. Efêmero. Significante também (...) Sempre chovia. Desde a primeira vez. Desde a "bandeira branca", do baixar da guarda. Desde que o deixou entrar. Lembrou da primeira vez em que subiu aquelas escadas. Idagou-se: "o que diabos estou fazendo aqui?", mesmo sabendo que aquele ali era o lugar em que deveria estar. Pelo menos naquele momento. Lembrou do beijo tímido, do "é por aqui", do "tá frio", e ainda do "pensei que não acharia sua casa". Do suéter azul, do seu suéter listrado de preto e branco, da bolsa xadrez, do filme (era laranja mecânica) e do adormecer sem querer no sofá. Chovia muito. Era de se esperar que capotasse por ali mesmo. Eram duas da tarde quando a levou pra casa. Sorria com a exigência que ele tinha imposto: "exclusividade da mesma forma que tens". A cumpriu. Mesmo sabendo que num futuro breve desejaria nunca ter o feito e que ele mesmo quebraria tal exigência. Logo, namorados. Logo, desamores. E a chuva sempre acompanhando assim como o frio. O apelido que dara a ela não fazia jus à estação do ano. "Pequeno maracujá", era quase assim. Tanto cuidado. Jogado fora. Não consegue lembrar das partes feias, as bloqueou. Talvez esteja lembrando certo. A chuva deve ter lavado, levado embora. Das mãos, nunca esquece. Ela tinha obsessão por mãos e tinha escolhido as dele como preferidas. Não encontrou mãos parecidas com aquelas, nem quis. Memorizou cada canto, fotografias mentais: quarto, cozinha, corredor, sacada, álbuns, histórias, caminhos, a escada... E com o tempo esqueceu da voz, do perfume, dos cabelos e até das mãos. Desistiu de recordar. Porque tinha noites em que alguns sonhos traziam a ilusão de o ter perto. Coisa que a realidade de um novo dia desfazia. Fora essencial num momento crucial. Mas tinha desistido de lembrar. Tinha esquecido de uma parte do que fora. Do que conseguiu sentir. Que conseguia sem importar. Que o adorava. Que talvez nunca deveria ter subido as escadas. Que guardaria aquilo em algum lugar e que acharia meio sem querer, assim como aquele seriado que gravou pra assistirem num sábado chuvoso. E que não terminaram de ver. Achou, olhou, recordou, derramou algumas lágrimas tímidas e trancou de volta no lugar. Já não fazia mais sentido há muito tempo. E no outro dia haveria sol...
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
Cedo
Deitou no sofá e dormiu menos que 5 minutos. Olhou pela janela e pensou consigo mesma que era tão tarde que já era cedo. Soltou as mãos. Calçou a sapatilha vermelha, prendeu os cabelos. Foi até a cozinha, tomou um copo d'água. Abriu o portão. Não pretendia acordá-lo, mas fez barulho ao desligar a música. "Estou indo pra minha casa", disse. Eram quase sete horas da manhã. Ela é do tipo que adorava observar as pessoas dormindo. Porém, não se atreveria. Não ali, não trazendo os estragos daquela noite, não desse jeito. Talvez não aquela pessoa. Não se atreveria a velar aquele sono porque talvez não fosse merecedora. Porque talvez ele ficasse como uma pintura gravada em sua cabeça. Aliás, quase todos ficaram. Mas, acima de tudo, não se atreveria a ficar, simplesmente. A essa altura, alguns raios laranja atravessavam a cortina. Despediu-se. Desculpas. Ela pede desculpas demais. Pra si mesma.
Pessoas habitadas.
Estava conversando com uma amiga, dia desses. Ela comentava sobre uma terceira pessoa, que eu não conhecia. A descreveu como sendo boa gente, esforçada, ótimo caráter. "Só tem um probleminha: não é habitada." Rimos. É uma expressão coloquial na França - habité -, mas nunca tinha escutado por estas paragens e com esse sentido. Lembrei de uma outra amiga que, de forma parecida, também costuma dizer "aquela ali tem gente em casa" quando se refere a pessoas com conteúdo.
Uma pessoa pode ser altamente confiável, gentil, carinhosa, simpática, mas se não é habitada, rapidinho coloca os outros pra dormir. Uma pessoa habitada é uma pessoa possuída, não necessariamente pelo demo, ainda que satanás esteja longe de má referência. Clarice Lispector certa vez escreveu uma carta a Fernando Sabino dizendo que faltava demônio em Berna, onde morava na ocasião. A Suíça, de fato, é um país de contos-de-fada onde tudo funciona, onde todos são belos, onde a vida parece uma pintura, um rótulo de chocolate. Mas falta uma ebulição que a salve do marasmo.
Retornando ao assunto: pessoas habitadassão aquelas possuídas, de fato, por si mesmas, em diversas versões. Os habitados estão preenchidos de indagações, angústias, incertezas, mas não são menos felizes por causa disso. Não transformam suas "inadequações" em doença, mas em força e curiosidade. Não recuam diante de encruzilhadas, não amedrontam com transgressões, não adotam as opiniões dos outros para facilitar o diálogo. São pessoas que surpreedem com um gesto ou uma fala fora do script, sem nenhuma disposição para serem bonecos de ventríloquos. Ao contrário, encantam pela verdade pessoal que defendem. Além disso, mantêm com a solidão uam relação mais do que cordial.
Então são as criaturas mais incríveis do universo? Não necessariamente. Entre os habitados há de tudo, gente fenomenal e também assassinos, pervertidos e demais malucos que não merecem abrandamento de pena pelo fato de serem, em certos aspectos, bastante interessantes. Interessam, mas assustam. Interessam, mas causa dano. eu não gostaria de repartir a mesa de um restaurante com Hannibal Lecter, "The Cannibal", ainda que eu não tenha dúvida de que o personagem imortalizado por Anthony Hopkins renderia um papo mais estimulante do que uma conversa com, sei lá, Britney Spears, que só tem gente em casa porque está grávida. Zzzzzzzzz.
Que tenhamos a sorte de esbarrar com seres habitados e ao mesmo tempo inofensivos, cujo único mal que possam fazer é nos fascinar e nos manter acordados uma madrugada inteira. Ou a vida inteira, o que é melhor ainda.
Martha Medeiros
As pessoas "habitadas" estão aí. Só falta a madrugada oportuna.
Uma pessoa pode ser altamente confiável, gentil, carinhosa, simpática, mas se não é habitada, rapidinho coloca os outros pra dormir. Uma pessoa habitada é uma pessoa possuída, não necessariamente pelo demo, ainda que satanás esteja longe de má referência. Clarice Lispector certa vez escreveu uma carta a Fernando Sabino dizendo que faltava demônio em Berna, onde morava na ocasião. A Suíça, de fato, é um país de contos-de-fada onde tudo funciona, onde todos são belos, onde a vida parece uma pintura, um rótulo de chocolate. Mas falta uma ebulição que a salve do marasmo.
Retornando ao assunto: pessoas habitadassão aquelas possuídas, de fato, por si mesmas, em diversas versões. Os habitados estão preenchidos de indagações, angústias, incertezas, mas não são menos felizes por causa disso. Não transformam suas "inadequações" em doença, mas em força e curiosidade. Não recuam diante de encruzilhadas, não amedrontam com transgressões, não adotam as opiniões dos outros para facilitar o diálogo. São pessoas que surpreedem com um gesto ou uma fala fora do script, sem nenhuma disposição para serem bonecos de ventríloquos. Ao contrário, encantam pela verdade pessoal que defendem. Além disso, mantêm com a solidão uam relação mais do que cordial.
Então são as criaturas mais incríveis do universo? Não necessariamente. Entre os habitados há de tudo, gente fenomenal e também assassinos, pervertidos e demais malucos que não merecem abrandamento de pena pelo fato de serem, em certos aspectos, bastante interessantes. Interessam, mas assustam. Interessam, mas causa dano. eu não gostaria de repartir a mesa de um restaurante com Hannibal Lecter, "The Cannibal", ainda que eu não tenha dúvida de que o personagem imortalizado por Anthony Hopkins renderia um papo mais estimulante do que uma conversa com, sei lá, Britney Spears, que só tem gente em casa porque está grávida. Zzzzzzzzz.
Que tenhamos a sorte de esbarrar com seres habitados e ao mesmo tempo inofensivos, cujo único mal que possam fazer é nos fascinar e nos manter acordados uma madrugada inteira. Ou a vida inteira, o que é melhor ainda.
Martha Medeiros
As pessoas "habitadas" estão aí. Só falta a madrugada oportuna.
domingo, 6 de fevereiro de 2011
Ela era o cara.
Me peguei pensando nela esses dias. Lembrando. Lembrando de uma forma legal, não triste. E isso também não significa que eu a esqueci. Jamais a esquecerei. Jamais esquecerei o trajeto que fazia para encontrá-la pro almoço às vezes. Ou dos livros pro vestibular que eu lia enquanto a esperava no trabalho. Assim que saia, acendia um cigarro. Era batata. O mais engraçado é que, apesar de fumante, nunca exalava fumaça de cigarro. Sempre achei isso impressionante: ela estava sempre muito perfumada. Não era vaidosa ao extremo, mas não dispensava um batom de cor forte. Aliás, tinha vários; uma coleção deles. Adorava sapatos também. Ah, e bolsas. Nunca a vi usando tênis e esse fato sempre me deixou curiosa. "Não gosto", dizia. Também não usava sapatos vermelhos alegando ficar com "pés de pombo". Okay. Era culta, engraçada e ótima cozinheira. Tratava os outros como iguais, com simplicidade e gentileza. Costumava apelidar as pessoas que mais gostava e deu o nome a todos os cachorros que tínhamos. Os adorava. Adorava ler também. Na verdade, devorava os livros. Dentre seus preferidos estavam Sidney Sheldon, Harold Robbins e Agata Christie. Era fã da literatura machadiana também. Quando perguntei a ela certa vez se Capitu traiu ou não Bentinho ela respondeu: "Vai ler, oras. O livro tá lá dentro!". Como eu disse, era culta. E não só em relação à literatura: música, cinema, esportes. Mal sabia eu que tinha tanto dela em mim. Foi preciso o término de um relacionamento de 19 anos pra eu perceber isso. Só ela sabia como mexer no meu cabelo e só ela me chamava de rabugenta do jeito mais carinhoso e lindo do mundo. Tem dias que eu acordo lembrando que me esqueci às vezes. Temo por esquecer da voz dela, das mãos dela, do perfume. Temo por esquecer o que aprendi com ela e até de decepcioná-la, mesmo sabendo que isso não é mais possível. Ou é? Ela me amou mais que tudo, acreditou, me ensinou a ter paciência, a respeitar os outros e aceitar as diferenças entre nós, humanos. Me ensinou a ter caráter, a ser o que eu sou hoje. Ela que me deu a vida e que se foi. Uma coisa é certa e que ainda dói de vez em quando é que eu nunca mais vou poder apresentá-la a ninguém. E nada do que eu fale ou escreva, nenhuma homenagem nunca será o suficiente pra homenagear Dona Rita. Minha mãe era o cara!
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